Boletim Clínico



AS 10 COISAS QUE DEVERIA SOBRE A DOR

1.  Dor é, em qualquer circunstância, uma informação processada pelo cérebro. Em 1996, Ronald Malzack desenvolveu o conceito de matriz neural. A matriz neural, em termos simplistas, é o conjunto de todos os mecanismos dentro do cérebro, que, quando ativados, produzem dor. Por exemplo, quando há dor no tornozelo, a dor é gerada por informações recolhidas pelo cérebro. A dor é um mecanismo de defesa desenvolvido para proteger o corpo.
2.  O grau de lesão nem sempre é igual ao grau de dor. Pesquisas recentes dizem-nos que lesões mais graves podem doer menos que lesões menos graves. O grau de dor que se sente está mais relacionado com experiências de dor anteriores. Por exemplo, se já fez um entorse do tornozelo anteriormente e voltou a repetir esta lesão, provavelmente terá mais dor que no primeiro. Isso ocorre porque o cérebro aprendeu a proteger o tornozelo após a lesão e defende-o através da dor.
3.  Apesar dos exames complementares de diagnóstico (como a ressonância magnética, a radiografia e a tomografia axial computadorizada - TAC) mostrarem imagens objetivas, os resultados podem não ser a causa da sua dor. Os exames complementares de diagnóstico dão-nos uma excelente imagem da anatomia interna, no entanto é possível recolher deles pouca informação sobre a dor. Um estudo realizado em indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos, sem sintomas de dor lombar, evidenciou que 36% dos sujeitos tinham hérnia discal, 21% tinham estenose espinhal e mais de 90% tinham processos degenerativos associados ao disco. O que aparece numa imagem pode ou não estar relacionado com os sintomas.
4.  Factores ​​psicológicos, como depressão e ansiedade, podem fazer a dor piorar. A dor pode ser influenciada por inúmeras variáveis e  os componentes psicológicos são uma delas. Um estudo recente publicado no  Journal of Pain mostrou que as variáveis psicológicas e mitos associados à realização de uma prótese de joelho, em fase pré-cirurgica, estão altamente relacionados com a dor mantida a longo prazo após a cirurgia. O tratamento destes factores psicológicos pode ser mais eficaz do que a própria cirurgia.
5.  A artrite não causa dor. Apesar de haver relação entre os sintomas, nem todos os indivíduos com artrite sentem dor. Dor da artrite é muitas vezes relacionada com variáveis ​​secundárias como o sedentarismo, a depressão, etc.
6.  O ambiente social pode influenciar a experiência dolorosa. Muitas pessoas indicam que a dor aumenta quando estão no trabalho ou quando estão numa situação stressante. A informação de dor pode ser enviada ao cérebro num ambiente que o individuo não considera seguro. É mais uma forma que o cérebro utiliza para protegê-lo.
7.  A vertente educacional sobre a dor pode ser mais eficaz do que o trabalho de fortalecimento muscular e estabilização central na prevenção da dor lombar. Um estudo publicado na BMC Medicine, mostrou que a educação para reduzir o medo e o risco de dor lombar foi muito mais eficaz na prevenção do aparecimento da dor do que um programa de estabilização central.
8.  O nosso cérebro pode ser enganado, provocando-nos sensação de dor num membro artificial (por exemplo, uma prótese). São vários os casos reportados de dor fantasma, isto é, quando o paciente refere dor num membro amputado no qual foi inserido uma prótese. Utilizando uma técnica de espelhos é possível reduzir a dor, ensinando o cérebro.
9.  A capacidade de distinguir a esquerda da direita é alterada quando há dor. As redes corticais do cérebro que ajudam a diferenciar a esquerda da direita são afectadas quando há dor severa. 
10.   Alguns profissionais de saúde fazem os seus pacientes sentirem-se melhor, dizendo que "têm uma grande tolerância à dor". Esta afirmação pode fazê-lo sentir-se melhor, no entanto não é suportada pela investigação científica. Existe um instrumento denominado de algómetro, utilizado para medir objectivamente a dor, que se encontra actualmente em estudo, mas ainda não há dados para definir o que é realmente uma "tolerância elevada".

Traduzido do original:
Publicado por Joseph Brence – fisioterapeuta e investigador de South Hills of Pittsburg. Pa. Expert em neurobiologia em condições de dor e nos efeitos neurofisiológicos da terapia manual. É autor de vários blogs profissionais e participa frequentemente em projectos de investigação.


Janeiro 2012




TERAPIAS E AGENTES FARMACOLÓGICOS EM LESÕES MÚSCULO-ESQUELÉTICAS 



É essencial que o fisioterapeuta responsável por um processo de reabilitação conheça os prováveis efeitos de alguns tipos de fármacos. Em grande partes dos casos, sobretudo ao nível desportivo, o fisioterapeuta é o profissional de saúde a quem são pedidos conselhos sobre os mesmos, devendo ter por isso um conhecimento aprofundado sobre alguns medicamentos, com ou sem receita médica.
Para que seja eficaz, um fármaco precisa, em primeiro lugar, de entrar no sistema e em seguida atingir um receptor no tecido alvo. A administração de medicamentos pode ser tanto interna como externa e baseia-se no tipo de resposta desejada, seja local ou geral.
Para informação geral, e no âmbito das lesões músculo-esqueléticas, procuramos incluir neste artigo os medicamentos e terapias que podem ter mais interesse para o fisioterapeuta durante um processo de reabilitação ou que podem ser importantes no caso de ser o único profissional de saúde a acompanhar atletas numa competição.

Substâncias que actuam sobre a dor e a inflamação
São essencialmente usadas para reduzir dor, rigidez, edema, rubor e sintomas relacionados com inflamação localizada. Oferecem alívio ao reduzir o processo inflamatório, provocando uma analgesia sistémica. Existem vários exemplos: sprays frios de aerossol, bálsamos analgésicos à base de mentol, aplicações de frio (gelo 15 a 20 minutos), fármacos (Aspirina, Voltaren - Diclofenac, Reumon, Brufen - mais indicado em crianças - entre outros) ou mesoterapia médica à base de lidocaína. Alguns medicamentos têm também efeito anti-pirético, utilizados para o controlo da febre (Aspirina, Benuron - Paracetamol, Brufen, entre outros).

Substâncias que produzem relaxamento músculo-esquelético
Utilizadas no tratamento de situações em que há espasticidade muscular. São exemplos os bálsamos que produzem sensação de calor, aplicações de calor e fármacos (Relmus e Adalgur, entre outros).

Substâncias que controlam derrames, hematomas e hemorragias
São sobretudo de utilização tópica e podem ser aplicadas nos casos em que à lesão está associado um derrame venoso ou uma equimose (nódoa negra).
A aplicação de frio tem um efeito benéfico nestas condições, assim como alguns fármacos (Hirudoid, Thrombocid, entre outros) e cremes de Arnica (produto natural à base de plantas).

Há que ressalvar que cada indivíduo reage de forma particular aos fármacos. Uma quantidade de medicamento pode ser suficiente para uma determinada pessoa e para outra pode não provocar qualquer alteração.
Antes da administração de qualquer medicamento deve ler atentamente o folheto informativo do mesmo, dando especial atenção à posologia, indicações clínicas, efeitos secundários e contra-indicações.